Há palavras que escolhemos antes de compreender inteiramente o que elas poderão significar. Talvez “Raiz” tenha sido uma delas. Quando um nome é escolhido para um projeto que está começando, ele costuma carregar alguma intenção, alguma imagem do que se deseja construir, mas também algo que só o tempo poderá revelar. Depois de muitos anos, voltar à escolha desse nome não significa simplesmente recuperar sua origem. Significa perguntar o que aconteceu com ele. O que uma palavra passa a dizer depois de atravessada pelas pessoas que chegaram, pelas que partiram, pelos trabalhos realizados, pelas dificuldades, pelos encontros e pelas mudanças que não poderiam ter sido previstas quando tudo começou?

No episódio de Raízes de Reich em que revisitamos a história do Instituto Raiz, essa pergunta aparece de maneira quase inevitável. Falamos sobre a origem do Instituto, sobre a escolha do nome, sobre pessoas e acontecimentos que participaram dessa trajetória. Mas, enquanto conversávamos, talvez estivéssemos falando também de outra coisa. Porque retornar à origem não é necessariamente retornar ao mesmo lugar. Há uma diferença importante entre procurar uma origem para confirmar aquilo que já sabemos sobre nós e voltar a ela para descobrir o que ainda pode se mover.

A imagem da raiz é curiosa justamente por isso. À primeira vista, ela parece falar de permanência. A raiz fixa, prende, estabelece uma ligação com determinado solo. É aquilo que não vemos, mas que sustenta o que aparece. Há nela alguma coisa da história: uma espécie de continuidade subterrânea que permanece mesmo quando a paisagem se modifica. Entretanto, uma raiz viva não é imóvel. Ela se espalha, procura água, contorna obstáculos, ocupa novas regiões do solo. Talvez tenhamos nos acostumado a associar estabilidade à ausência de movimento quando, para um organismo vivo, ocorre quase o contrário: permanecer vivo exige uma capacidade permanente de reorganização.

Essa questão não é estranha ao pensamento reichiano. Uma das contribuições mais importantes de Reich foi perceber que a história não permanece em nós apenas como lembrança. Ela se organiza em modos de responder ao mundo, de estabelecer relações, de respirar, de sustentar ou evitar determinadas experiências. O caráter é também uma forma de continuidade. Há alguma inteligência nessa continuidade, porque aquilo que se organiza um dia como defesa não surge gratuitamente. Responde a determinadas condições da vida. O problema começa quando uma resposta construída em determinado momento deixa de poder se modificar diante de novas condições. O que antes permitiu uma adaptação pode então tornar-se rigidez. A história continua presente, mas já não funciona como raiz: funciona como limite.

Talvez por isso a pergunta que ficou depois da conversa tenha sido: o que significa criar raízes sem permanecer imóvel?

A pergunta vale para uma pessoa, mas talvez valha igualmente para uma instituição. Instituições também constroem modos de existir. Criam hábitos, linguagens, lugares reconhecidos, relações, formas de ensinar e de transmitir aquilo em que acreditam. Com o tempo, tudo isso produz uma identidade. E uma identidade é necessária: precisamos reconhecer alguma continuidade para podermos dizer que algo permanece sendo aquilo que é. Mas toda identidade carrega também um risco. Quando aquilo que nos permite reconhecer quem somos passa a determinar aquilo que podemos ser, a continuidade começa a se confundir com repetição.

Talvez seja justamente nesse ponto que a ideia de movimento se torne importante para o Raiz neste momento. Não se trata de abandonar uma história para começar outra. Tampouco de produzir uma novidade apenas porque o novo parece mais atraente. Mover-se pode significar outra coisa: permitir que uma história continue trabalhando. Há diferenças importantes entre romper com uma origem e deixar que uma origem produza novos caminhos. A primeira operação pode exigir o esquecimento; a segunda depende da memória. Mas de uma memória que não funcione como monumento.

Isso também modifica a maneira como podemos pensar a tradição reichiana. Há sempre um risco quando nos aproximamos de um autor cuja obra produziu uma tradição: transformar seus conceitos em objetos a serem preservados. Nesse caso, ser reichiano significaria repetir determinadas formulações, proteger determinadas fronteiras ou reconhecer uma espécie de identidade teórica previamente estabelecida. Mas talvez uma tradição permaneça viva justamente quando consegue suportar as perguntas que o presente lhe dirige. Pensar Reich hoje não deveria significar imaginar o que Reich responderia a todas as nossas questões. Talvez signifique perguntar quais problemas sua obra ainda nos ajuda a enxergar — e também diante de quais problemas precisamos continuar pensando para além dela.

Uma raiz não determina a forma exata da árvore.

Talvez essa seja uma imagem possível para o momento que atravessamos. Há uma história que sustenta o Instituto Raiz. Há pessoas, pensamentos, práticas e encontros sem os quais ele não seria aquilo que é. Reconhecer essa história não exige transformá-la em um modelo ao qual o futuro precise obedecer. Ao contrário: talvez honrar uma origem seja permitir que ela continue produzindo consequências que ainda não conhecemos.

Depois de tantos anos, perguntar novamente pelo nome “Raiz” talvez seja uma maneira de perceber que ele nunca falou apenas de permanência. Falava também, mesmo que ainda não soubéssemos, da possibilidade de crescer a partir de algum lugar.

E crescer, para um organismo vivo, nunca foi permanecer imóvel.

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