Por Susana Z Scotton
Há situações que se tornam invisíveis talvez porque sempre estiveram conosco. A clínica conhece bem esse movimento. Algumas palavras atravessam anos de trabalho, retornam sessão após sessão, aparecem em diferentes histórias e, pouco a pouco, passam a circular como se já soubéssemos exatamente do que falam. Talvez isso descreva a ilusão. Talvez aconteça também com a fantasia, com a esperança, com aquilo que imaginamos sobre nós mesmos ou sobre os outros. São experiências tão íntimas que acabamos por tratá-las como parte da paisagem, sem perceber que continuam organizando silenciosamente a maneira como habitamos o mundo.
Mas a clínica, às vezes, produz um acontecimento discreto. Ela não apresenta necessariamente um novo conceito nem revela uma verdade escondida. Apenas modifica o ângulo do olhar. E aquilo que parecia excessivamente conhecido começa, de repente, a adquirir espessura. Não porque tenha mudado. Porque nós mudamos a maneira de nos aproximar dele.
Freud compreendeu muito cedo que a vida psíquica não poderia ser reduzida aos acontecimentos do mundo externo. A realidade psíquica, que organiza um sujeito, não coincide, necessariamente, com a realidade dos fatos. Existe uma realidade psíquica, feita de lembranças, desejos, fantasias, expectativas e cenas que, embora jamais tenham acontecido da forma como são vividas, possuem uma eficácia incontestável. Não é preciso que uma fantasia seja verdadeira para que ela organize uma existência. Isto é, muitas vezes, vivemos também aquilo que imaginamos.
Talvez antes mesmo de aprendermos a distinguir claramente entre aquilo que aconteceu e aquilo que desejávamos que tivesse acontecido, já construímos pequenas narrativas capazes de dar sentido às experiências mais primitivas. A infância não nos oferece apenas memórias. Ela nos oferece modos de imaginar. Os contos de fadas, os heróis, as promessas silenciosas inscritas nas relações familiares, as imagens de reconhecimento e de amor participam da construção desse território em que a vida psíquica começa a se organizar.
Mas, vejamos, não se trata de um erro, pois imaginar seja uma das primeiras formas de suportar o desconhecido. Porém, aquilo que inicialmente protege também pode, em outro momento, aprisionar.
Essa passagem é tênue, possui nuances próprias. Não existe um instante em que a fantasia deixa de ser recurso e passa a ser obstáculo. Há, antes, um deslocamento quase imperceptível. A energia que antes ajudava o sujeito a sustentar uma travessia começa a permanecer investida numa cena interior. Aos poucos, não é mais a experiência que conduz a vida, mas a expectativa da experiência. Não é o encontro que mobiliza o desejo, mas a imagem do encontro. Não é a realidade que decepciona; talvez seja a comparação permanente entre a realidade e uma promessa que nunca deixou de ser alimentada.
É curioso perceber como esse movimento pode tornar a vida aparentemente pobre. As pequenas experiências perdem intensidade. Os encontros cotidianos parecem insuficientes. A simplicidade deixa de produzir encanto. Entretanto, talvez não seja a realidade que tenha perdido sua potência. Talvez seja o investimento que permaneça excessivamente comprometido com uma cena que continua exigindo ser realizada.
A fantasia, se torna ‘um local’ inabitável, em que a vida continua sendo esperada. Nesse sentido, Reich tem contribuições valiosas. Se Freud mostrou que não somos transparentes para nós mesmos, Reich pergunta de que maneira essa ‘ilusão’ deixa de ser apenas um fenômeno psíquico e passa a organizar o próprio organismo.
Se a experiência humana não se limita às representações conscientes, talvez também não se limite às representações inconscientes. A experiência encontra continuidade na respiração, na musculatura, no ritmo, na postura, na qualidade do contato que estabelecemos com o mundo. O organismo não seria apenas o lugar onde a história deixa marcas. Talvez ele seja a própria história vivendo no presente.
Sob essa perspectiva, a ilusão deixa de ser apenas uma ideia equivocada sobre a realidade para se tornar uma forma de funcionamento. Assim, talvez algumas fantasias permaneçam menos conscientes, pois aprendemos, ao longo da vida, a respirar com elas. A organizar o corpo segundo a promessa silenciosa que carregam.
Reich falava que toda experiência psíquica encontra expressão funcional no organismo. Não há pensamento que permaneça apenas pensamento quando se torna forma de viver. Por essa razão, talvez o trabalho clínico não consista em desfazer ilusões.
Esses fenômenos não são tão concretos e não passam apenas pelo crivo racional. Como se bastasse interpretar uma fantasia para que ela perdesse sua força e como se compreender fosse suficiente para reorganizar uma existência.
A clínica mostra que mesmo que reconheçamos que certo ideal nunca poderá realizar aquilo que prometia, ainda assim, alguma coisa permanece. Talvez porque aquilo que chamamos de ilusão tenha sido, durante muito tempo, uma forma de preservar a continuidade da vida.
Essa pode ser uma relevante na clínica ao nos dirigirmos às fantasias de um sujeito: o que elas sustentaram? Antes de perguntar se uma ilusão corresponde aos fatos, talvez seja necessário perguntar a que experiência ela procurou responder, que ausência tentou substituir, que desamparo tentou contornar. Qual foi a esperança que preservou quando nenhuma outra organização da vida ainda era possível?
Essa mudança de perspectiva altera também a escuta. Já não ouvimos a ilusão apenas como equívoco e passamos a escutá-la como testemunho.
Numa perspectiva reichiana, uma ilusão ‘desaparece’, porque o organismo já não precisa dela para sobreviver. Mas esse não é um movimento barulhento, muitas vezes. É algo discreto. Não se trata de ver a verdade vencer o ‘erro’. Mas mudar a qualidade do contato.
Para Reich a saúde não significa adaptação passiva, mas capacidade de responder de maneira viva às situações concretas da existência. Talvez essa formulação também possa valer para as ilusões. Isto é, à medida que a vida volta a ser um lugar menos inóspito, a energia antes aprisionada na ilusão pode ser liberada para outros caminhos. O encanto deixa de depender de um ‘por vir’ imaginário e é reutilizado na experiência, na presença do outro, na simplicidade dos acontecimentos, que já não precisam competir com uma cena imaginária para serem vividos.
Talvez seja isso que chamamos de ‘mudança’. Não a substituição de uma crença por outra mais verdadeira. Mas o lento deslocamento de um organismo que recupera, pouco a pouco, a capacidade de encontrar a vida na experiência dos fatos.
Pode ser que o convite da clínica seja esse: não convencer alguém a abandonar suas ilusões, mas acompanhar o momento em que elas deixam de ser necessárias.
