O mecanismo inteligente das defesas

Por Susana Z Scotton

Há uma imagem que me acompanha quando penso nas defesas e que a resgato das experiências feitas por Reich. Falamos sobre isso durante uma conversa entre nós três, eu, Susana, Lucas e Fabiana, no podcast Raízes de Reich (Spotify). Neste episódio em específico, conversamos sobre caráter, sobre proteção, sobre aquilo que nos faz permanecer vivos diante das experiências que, em algum momento, ultrapassaram nossa capacidade de resposta. Para isso, pensemos numa célula.

Antes mesmo de sabermos qualquer coisa sobre ela, imaginamos seu núcleo envolvido por uma membrana. Não pensamos primeiro na membrana, mas naquilo que ela protege. A membrana não existe porque a célula teme o mundo. Ela existe porque há algo suficientemente precioso para ser preservado. Sua função não é impedir a vida, mas justamente torná-la possível.

Talvez essa seja uma boa maneira de começar a pensar as defesas. Existe uma tendência quase inevitável de olhá-las como obstáculos. Dizemos que alguém é rígido, desconfiado, agressivo, silencioso, controlador. A própria palavra “defesa” parece carregar um julgamento antecipado, como se apontasse apenas aquilo que impede o encontro. Mas Reich nos convida a inverter essa lógica. Antes de perguntar de que alguém se defende, talvez seja necessário perguntar o que essa defesa precisou proteger para que a vida pudesse continuar.

Essa pequena mudança desloca profundamente o olhar clínico. Em vez de combater a defesa, começamos a escutá-la. Isso porque nenhuma defesa nasce gratuitamente.

O organismo não desperdiça energia construindo muralhas sem necessidade. Quando uma criança aprende a prender a respiração; quando o corpo endurece diante de determinadas situações; quando o silêncio passa a ocupar o lugar da palavra, alguma coisa está tentando sobreviver. Há uma inteligência silenciosa nesse gesto. Uma inteligência que não foi construída por conceitos, mas pela própria experiência de viver.

Essa é uma das grandes contribuições de Reich: reconhecer que o organismo pensa antes mesmo das palavras. Isto é, muito antes de conseguirmos explicar o que nos aconteceu, o corpo já havia encontrado maneiras de responder. A respiração muda. A musculatura se reorganiza. O olhar aprende a evitar certos encontros. A voz perde intensidade ou se torna excessivamente firme. O organismo inteiro procura uma solução possível para continuar existindo.

Não porque escolheu conscientemente fazê-lo, mas porque a vida sempre procura continuar, ela quer se autopreservar. Essa perspectiva muda também a maneira como compreendemos o sofrimento. Afinal, aquilo que hoje aparece como ‘limitação’ talvez tenha sido, um dia, exatamente aquilo que permitiu atravessar uma experiência impossível, cujo excesso de excitação era demais para aquela estrutura corporal num momento precoce da vida e, portanto, identificado como ameaçador.

Durante nosso diálogo, surgiu outra imagem, trazida pelo Lucas, que me parece igualmente fecunda: a da tartaruga. Seu casco protege aquilo que é mais vulnerável. Sem ele, talvez não sobrevivesse. Mas o mesmo casco que protege também limita a velocidade, a mobilidade, a exposição ao mundo. Há um preço inevitável em toda proteção.

Penso que as defesas humanas guardam algo semelhante. Elas nunca são apenas prisões. Também nunca são apenas soluções. São modos de funcionamento que conservam, ao mesmo tempo, uma potência e uma perda. Protegem algo essencial, mas podem acabar restringindo justamente aquilo que pretendiam preservar.

Talvez seja por isso que a clínica não tenha como objetivo retirar as defesas de alguém, como quem desmonta um mecanismo defeituoso. Seria uma violência. Seria como arrancar a casca de uma árvore antes que seu tronco pudesse sustentar-se sozinho.

A clínica pode se questionar a partir de outra premissa: essa defesa ainda protege a vida ou apenas repete uma antiga forma de sobrevivência? Essa distinção pode ser muito produtiva, pois o perigo raramente está na existência da defesa. O perigo talvez esteja na sua permanência.

Existe um momento em que o organismo continua respondendo ao presente com recursos construídos para um passado que já não existe. Respondemos com dureza onde há curiosidade. Silenciamos diante de quem talvez pudesse nos escutar. Interpretamos como ataque aquilo que já não ameaça. Continuamos protegendo partes que já não precisam ser defendidas.

Porque esse tipo de resposta não parte da compreensão racional de uma situação e sim porque o organismo continua habitando um tempo diferente daquele que o pensamento reconhece, como se fosse um mecanismo desatualizado. 

Talvez seja justamente aí que a ideia de memória corporal adquira sua verdadeira profundidade. Não se trata de imaginar um corpo que guarda lembranças como uma biblioteca guarda livros. Trata-se de reconhecer que o organismo continua funcionando segundo aprendizagens que foram incorporadas muito antes de se tornarem narrativas.

Antes da linguagem, houve sensação. Antes da interpretação, houve contato. Antes da lembrança consciente, houve um corpo tentando encontrar uma forma possível de permanecer vivo.

Durante nossa conversa, falei de uma distinção que considero especialmente importante entre fragilidade e fraqueza. A fragilidade pode ser protegida e a fraqueza fortalecida. Nem toda vulnerabilidade é fraqueza. A fragilidade pertence à própria condição da vida. Um recém-nascido é frágil, por exemplo. Não porque lhe falte força, mas porque toda abertura, início, experiência implica algum grau de exposição e maturação, que deve ser protegida.

A fraqueza, por sua vez, pode ser fortalecida. Ela precisa ser cuidada. Talvez muitas de nossas defesas tenham nascido justamente quando fomos obrigados a transformar fragilidade em dureza, delicadeza em controle, sensibilidade em vigilância permanente.

Nesse sentido, a defesa deixa de ser apenas uma estrutura psíquica. Ela passa a revelar também uma ética da sobrevivência construída pelo organismo. Uma tentativa de proteger aquilo que, em determinado momento da vida, não encontrou outro modo de permanecer existindo.

Entretanto, nenhuma forma de proteção pode substituir indefinidamente a própria experiência de viver. Chega um momento em que a membrana precisa voltar a permitir trocas. Assim como a pele existe para proteger, mas também para sentir. Os pulmões existem para filtrar o ar, mas principalmente para respirar. Ou seja, o próprio corpo e seu mecanismo de funcionamento nos dão essa dica de expansão e contração.

As margens de um rio lhe dão direção, mas, se se transformarem em concreto absoluto, deixam de permitir que a água encontre novos caminhos. Talvez seja assim também conosco.

A maturidade não consiste em viver sem defesas, mas em permitir que elas recuperem sua plasticidade. Que possam aparecer quando necessárias e desaparecer quando o encontro já não representa uma ameaça. Que deixem de organizar toda a existência para voltar a cumprir apenas sua função original: proteger a vida.

Talvez esse seja um dos gestos mais delicados da clínica reichiana.Não convencer alguém a abandonar suas antigas proteções, mas criar condições para que o próprio organismo descubra, pouco a pouco, que já não precisa responder ao presente com os medos que um dia garantiram sua sobrevivência.

Porque toda defesa nasce para proteger uma possibilidade de vida. Mas talvez a própria vida, quando volta a encontrar espaço para respirar, nos ensine que algumas proteções já podem, finalmente, descansar.

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