Por Susana Z Scotton

Talvez o espaço não seja apenas o cenário no qual a vida acontece. Talvez ele participe daquilo que nos tornamos. Os lugares da nossa infância são marcas presentes na forma como aceitamos ou rejeitamos alguns lugares. Como determinados ambientes nos causam temor ou acolhimento, seja um tipo de iluminação, uma janela que se abre a uma paisagem… Há lugares que silenciam o corpo. Outros parecem ampliar nossas defesas. E há aqueles que, quase sem percebermos, nos devolvem uma respiração mais ampla, uma escuta mais atenta, um corpo mais disponível para o encontro. Lugares nos quais encontramos mais liberdade de ser quem somos; outros que temos que “pisar devagarinho”, como diz a música. 

Essa é uma questão que atravessa o pensamento de Reich. Afinal, o corpo também pode ser compreendido como um espaço. Um espaço no qual a história se organiza, onde as experiências permanecem inscritas e a partir do qual estabelecemos contato com o mundo. O caráter não se organiza apenas no tempo. Ele também se revela na relação que estabelecemos com os espaços que habitamos. 

Essa experiência, aos poucos, também foi atravessando a nossa maneira de compreender a Formação Presencial em Psicologia Corporal. Por isso, nessa Formação do Instituto Raiz, a experiência na natureza não é um intervalo entre as aulas. Ela faz parte do próprio processo formativo. São os chamados Workshops e acontecem duas vezes ao ano ao longo dos três anos da Formação e são realizados fora do Instituto, em Hospedagens que propiciem esse contato.

Vamos à natureza, não porque ali tenha algo de mágico ou ofereça respostas prontas, mas porque, em determinados contextos, aquilo que habitualmente sustenta nossas formas de funcionar pode começar a ceder. O ritmo muda. O silêncio produz outras escutas. O corpo encontra outras referências. E experiências que pareciam distantes tornam-se, de algum modo, possíveis. 

A natureza (experiência de floresta) nos absorve. Perdemos as referências espaciais e temporais da vida cotidiana e começamos a funcionar num espaço que requer cuidados com o básico. Nossos sentidos voltam a ficar aguçados. É preciso perceber o chão que se pisa, cuidar para não se machucar… perceber a importância do outro. É preciso ajudar e se deixar ajudar. Os papéis se invertem, a lógica é outra. Somos convidados a pensar e ver de outro lugar. 

Ao final, para quem se permite atravessar a experiência, costuma permanecer um ‘cansaço’ muito particular. Um cansaço que lembra as brincadeiras da infância, os dias inteiros passados ao ar livre, a fome verdadeira de quem usou o corpo e o sono tranquilo de quem não precisou sustentar tantas defesas. Não como promessa de felicidade, mas como a possibilidade de reencontrar um modo mais simples de existir. Sem que nada disso seja uma promessa de experiência totalmente feliz. E trata-se de algo tão sensorial e primitivo que sua marca irá transcender o tempo vivido ali para gerar compreensões e novos significados vindouros. 

Talvez seja por isso que algumas compreensões não comecem na teoria, isto é, na ideia de algo, em sua representação. Elas começam quando o organismo vive uma experiência para a qual ainda não havia encontrado palavras. A teoria chega depois, não para substituir a experiência, mas para ajudá-la a ganhar forma e sentido.

Por tudo isso, a experiência de floresta ocupa um lugar muito importante na Formação em Psicologia Corporal e como Reich nos convida a pensar a relação entre espaço, caráter, organismo e maturidade.

Depois de tantos anos, ainda me parece difícil explicar exatamente o que acontece no Instituto Raiz. E talvez essa dificuldade faça parte da própria experiência. Há processos que podem ser descritos, mas só começam a ser compreendidos quando são vividos.

Quem sabe seja justamente por isso que continuamos tentando contar quem somos. Não para oferecer uma definição, mas para abrir um caminho de encontro.

“Só conseguiremos explicar quem somos quando encontrarmos quem é você.”

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