Um encontro com Wilhelm Reich

Nasci em São Carlos, interior de São Paulo, localidade que, no início dos anos 1970, destacava-se como um importante polo universitário de ciências exatas. Porém, na esfera pessoal, eu experimentava uma clara propensão para as ciências humanas e sociais. Durante o colegial, tocado pelas aulas de uma professora de Psicologia, dona Clacy (obrigado, mestra!), decidi seguir, de mala e cuia, para a vizinha e maior, Ribeirão Preto; cidade onde cursei Psicologia na Universidade de São Paulo. Na época, uma formação voltada, sobretudo, para a preparação de futuros pesquisadores científicos.

Com apenas menções esporádicas a Wilhelm Reich durante a faculdade, mas sensível aos fortes ventos que sopravam da contracultura, acabei entrando em contato com alguns livros de Reich; um autor que falava da sexualidade, mas com olhos voltados para o campo social. Um contato inicial, não sistemático, mas, de alguma forma, marcante.

No território da clínica, participei na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, sob a condução do psicanalista Flávio Fortes D’Andrea, de um Grupo Triádico – uma articulação entre dinâmica de grupo, técnica psicodramática e leitura psicanalítica. Experienciei, naquele grupo terapêutico, de modo inaugural, por meio das técnicas psicodramáticas, o corpo na cena clínica. Recordo, também, que foi daquele analista que ouvi o comentário de que, Reich teria, de início, realizado “muita coisa boa”.

O passo seguinte foi o da entrada na pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP), já em São Paulo. No mestrado, aliando um interesse pelas práticas esportivas e pelo corpo, investiguei a aprendizagem de uma habilidade motora, o arremesso do lance-livre no basquetebol. Ainda no início do mestrado, fui contratado como docente do IPUSP, mais especificamente, para atuar nas disciplinas do setor de personalidade. Neste, em função de uma inclinação pessoal e, também, por uma circunstância institucional, assumi algumas aulas a respeito de Reich; ação que, até então, era desenvolvida pelo saudoso professor Norberto Abreu e Silva Neto, o docente responsável pela iniciativa de abrir espaço no IPUSP para o ensino sistemático das abordagens de Jung e Reich.

No curso de graduação em Psicologia, por mais de três décadas, vivi uma fértil dobradinha com a professora Laura Villares de Freitas, ela trabalhando com Jung e eu, com Reich. Aos poucos, depois de importar livros, socar algumas almofadas e entrar em caixas de orgone, organizei, em 1986, a disciplina optativa A Psicologia de Wilhelm Reich, local aberto para inúmeros profissionais do campo reichiano que, como convidados, ministraram aulas, mostrando seus trabalhos. A primeira delas foi dada por José Ângelo Gaiarsa.

Com o passar dos anos, no contexto das atividades ligadas ao estudo e ao ensino da abordagem de W. Reich, a tarefa que se impunha era a de estruturar um espaço formal de investigação a respeito das ideias desse autor. Fazendo um movimento nessa direção, logo após o término do mestrado em 1985, decidi pesquisar o referencial reichiano num projeto de doutorado; nada mais natural, afinal, há anos, os alunos já me chamavam de “Paulo Reich”. Assim, no doutorado, focalizei as formulações de Reich para a Educação, até onde sei, no Brasil, a primeira tese dedicada, integralmente, à pesquisa do pensamento de Reich.

Com a tese defendida, tive oportunidade de atuar no Programa de Pós-graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento humano do IPUSP, domínio onde ministrei a disciplina Reich: raízes do pensamento em Freud e ideias para Educação e passei a receber orientados, inicialmente de mestrado e, depois, de doutorado. Assim sendo, finalmente, tanto no âmbito da graduação como no de pós-graduação, um específico espaço de ensino e pesquisa sobre o legado científico de Wilhelm Reich estava estruturado no IPUSP. Ao todo, na pós-graduação, entre mestrados e doutorados, orientei 26 trabalhos, sendo 15 deles voltados para o universo reichiano. Em termos de contribuição autoral a esse campo do conhecimento, destaco a concepção de que não existe indivíduo potente, mas, sim, encontros potentes.

Mais ao final de minha trajetória no IPUSP, em dezembro de 2015, defendi a tese de livre-docência Na Psicanálise de Wilhelm Reich, pesquisa que, de certa forma, sintetizou o meu percurso de investigação. No ano seguinte, depois de 37 anos e nove meses de trabalho naquela instituição, me aposentei. Desde então, de maneira livre, tenho me dedicado a grupos de estudo que focalizam, em especial, as ideias e ações desenvolvidas por Reich na psicanálise, atividade que faço com enorme prazer e alegria.

Após este relato de trabalho/vida, pelo menos uma questão básica se impõe: afinal, o que a obra desse autor nos ensina? Pergunta ampla demais, mas, na procura de algo que sintetize o fundamental, diria que o contato com esse combatente cultural gera uma fértil, e séria, preocupação com a morte em vida, com a perda de vitalidade em função de adaptações sociais não singularizadas.

Para este curso, em parceria com o Instituto Raiz, buscarei, nos oito encontros programados, apresentar e problematizar as elaborações teóricas e as ações práticas efetuadas por Reich no seio do movimento psicanalítico. A sequência do conteúdo acompanha o que registrei na tese de livre-docência, Na Psicanálise de Wilhelm Reich. A esse material original, publicado na forma de livro em 2016, venho acrescentado ideias e desenvolvimentos, frutos de estudos desenvolvidas nos últimos quatro anos. Por exemplo, um mergulho na fecunda produção do escritor e filósofo argelino, Albert Camus, e um progressivo aprofundamento na obra do criativo psicanalista húngaro, muito valorizado por Reich, Sándor Ferenczi.

É isso, Pessoal: sejam bem-vindos a essa viagem pelos campos reichianos!

Paulo Albertini

Paulo Albertini é Professor Livre Docente Aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e será o responsável, no ano de 2021, pela Formação “Na Psicanálise de W. Reich”, na Escola Virtual do Instituto Raiz, acesse a página para maiores informações https://institutoraiz.com.br/na-psicanalise-de-wilhelm-reich/

Author:
Olá, sou a Fabiana e sou Coordenadora de Projetos do Instituto Raiz, clínica escola de Psicologia Corporal. Minha formação inicial é em Letras, fiz Mestrado e Doutorado em Estudos Literários. Durante meu doutorado, encontrei a Formação em Psicologia Corporal, cuja proposta casava com o meu tema de pesquisa e, por isso, resolvi cursar. Uma vez no Raiz, eu me apaixonei pelos estudos reichianos, pelas psicoterapias corporais e pelo Raiz como um todo na forma como Susana conduzia e conduz tanto a clínica quanto a escola. Desde que conclui minha formação, por aqui fiquei, contribuindo com os novos projetos. Em 2015, iniciamos o EAD Raiz e fui buscar uma nova formação em Design Instrucional pelo SENAC para dar conta das novas demandas e também pude ver as potencialidades do ensino a distância. Por fim, quero dizer que tem sido uma grande honra ver e participar do crescimento do Instituto Raiz.

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