O Primeiro Passo de todo Líder Analítico

A forma como nós estamos dispostos a olhar interfere diretamente na forma como lideramos.

Dentro de uma educação convencional, não somos muitas vezes educados a olhar para o mundo de forma reflexiva.

Nem sequer olhamos para nós mesmos de forma reflexiva. A forma como olhamos está, muita vezes, cristalizada em estereótipos, que produzem, por sua vez, paralisia, falatismos e até “cegueira”.

Mas como romper com esse modelo de olhar “viciado” e empreender uma liderança mais atenta? Baseada em Pichon-Rivière, digo que a Observação é a ferramenta com a qual se torna possível o aprendizado da construção do olhar sensível e pensante.

Nesta aprendizagem,  estão envolvidas a ATENÇÃO  e a PRESENÇA, que são formas de generosidade para com os outros. A atenção, por  exemplo, envolve sintonia consigo mesmo e ao mesmo tempo com o grupo. A concentração do olhar inclui outros sentidos como, por exemplo, a audição. “Ver” bem requer bons ouvidos!

Para olhar, é preciso escutar as falas, os silêncios e os ruídos que ocorrem na comunicação.

Ver e ouvir fazem parte da construção sensível do olhar.  Assim como não estamos acostumados a olhar com atenção e presença, não fomos educados para a escuta.

Não é raro, numa conversa, ao invés de ouvir o que o outro de fato fala, ouvir o que gostaríamos, chegando até, algumas vezes, imaginar o que o outro estaria falando, misturando a fala ‘real’ com nosso monólogo interior.

A mesma relação pode ser percebida no nosso olhar quando é estereotipado, quando quer ver e perceber só o que nos convém, isto é, quando também é um “olhar de monólogo”.

Assim corremos o risco de ter um olhar e uma escuta sem sintonia entre si, assim, dessintonizados e alienados da própria realidade do grupo.  A percepção falha quando procuramos ver e escutar não o grupo em si, mas as fantasias de nossa imaginação, o grupo idealizado…

Ouvir e ver, dentro da construção da aprendizagem do olhar, implica entrega ao outro. Isto é, é estar aberto para vê-lo e ouvi-lo como é, no que fala, percebendo o outro a partir de suas hipóteses, da sua forma de pensar; buscando sintonia com o seu ritmo, com o ritmo do grupo, em harmonia / ressonância com o nosso.

Para tanto, é preciso que haja concentração em nosso ritmo interno. Afinal, só é possível olhar para o outro de fato se  temos para conosco uma postura generosa e de aprendiz de nossa própria história; daquele que se observa e se estuda em sua própria história. Pois, senão, facilmente costuramos nosso enredo ao do outro de forma que as coisas se embaralhem e turvem, confundindo o olhar.

A ação reflexiva de olhar é também um ato de observar a si mesmo, o outro, o grupo a partir da teoria que nos inspira, na qual nos baseamos. Só posso ver o que sei, só posso levar o outro aonde já estive… portanto, na ação de se perguntar sobre o que estamos vendo / observando é que podemos ir além deste saber e, só assim, voltarmos à teoria para aplicar nossa reflexão e o nosso olhar.

Mas como podemos realizar essa observação-olhar-escuta-ativa?                   

Para treinar o olhar, por exemplo, vale registrar:

O que queremos observar;

Quais as hipóteses queremos checar;

O que estamos intuindo mesmo sem ver, sem entender o significado, etc.

Ainda: observar quais os movimentos do grupo ao longo do encontro, reunião ou outros momentos.

Como o grupo tem expressado suas concordâncias e divergências?

Como nós nos comportamos com as concordâncias e divergências do grupo? 

Como nós lidamos com os conflitos?

O exercício do olhar observador deve ser uma construção de aprendizado, pois aprendemos quando observamos. O olhar  observador acontece na cumplicidade da construção de um projeto, de uma tarefa em comum. Não deve, por isso, ter um caráter de vigilância, algo para apontar erros e defeitos. Falamos, antes, de um olhar generoso, que deve, por vezes, ser também corretivo.

A partir deste olhar observador acontecem novos encontros do grupo, momento em que poderemos defrontar nossas hipóteses e adequar os planejamentos, pois trata-se da observação da realidade possível e não da realidade idealizada.

Olhar, “olhar bem” pressupõe foco, direção. O líder que sabe olhar de forma observadora ajuda a direcionar os encontros e prioriza o que deve ser trabalhado de maneira mais  honesta, mais simples.

Assim, o Líder Analítico vai além das aparências para atingir a essência, a sua e a do grupo! Ele se dispõem a checar suas impressões na realidade dos fatos observados por seu olhar atento – para além dos olhos, mas um olhar com todo corpo: ouvidos, tato, coração. Ele está disposto a ensinar e aprender a cada passo, a cada mergulho num projeto e tarefa.

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Susana Z Scotton

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