{"id":5423,"date":"2026-09-22T16:27:54","date_gmt":"2026-09-22T19:27:54","guid":{"rendered":"https:\/\/institutoraiz.com.br\/2024\/?p=5423"},"modified":"2026-09-22T16:28:02","modified_gmt":"2026-09-22T19:28:02","slug":"criar-raizes-sem-permanecer-imovel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutoraiz.com.br\/2024\/criar-raizes-sem-permanecer-imovel\/","title":{"rendered":"Criar ra\u00edzes sem permanecer im\u00f3vel"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 palavras que escolhemos antes de compreender inteiramente o que elas poder\u00e3o significar. Talvez \u201cRaiz\u201d tenha sido uma delas. Quando um nome \u00e9 escolhido para um projeto que est\u00e1 come\u00e7ando, ele costuma carregar alguma inten\u00e7\u00e3o, alguma imagem do que se deseja construir, mas tamb\u00e9m algo que s\u00f3 o tempo poder\u00e1 revelar. Depois de muitos anos, voltar \u00e0 escolha desse nome n\u00e3o significa simplesmente recuperar sua origem. Significa perguntar o que aconteceu com ele. O que uma palavra passa a dizer depois de atravessada pelas pessoas que chegaram, pelas que partiram, pelos trabalhos realizados, pelas dificuldades, pelos encontros e pelas mudan\u00e7as que n\u00e3o poderiam ter sido previstas quando tudo come\u00e7ou?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No epis\u00f3dio de&nbsp;<em>Ra\u00edzes de Reich<\/em>&nbsp;em que revisitamos a hist\u00f3ria do Instituto Raiz, essa pergunta aparece de maneira quase inevit\u00e1vel. Falamos sobre a origem do Instituto, sobre a escolha do nome, sobre pessoas e acontecimentos que participaram dessa trajet\u00f3ria. Mas, enquanto convers\u00e1vamos, talvez estiv\u00e9ssemos falando tamb\u00e9m de outra coisa. Porque retornar \u00e0 origem n\u00e3o \u00e9 necessariamente retornar ao mesmo lugar. H\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre procurar uma origem para confirmar aquilo que j\u00e1 sabemos sobre n\u00f3s e voltar a ela para descobrir o que ainda pode se mover.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagem da raiz \u00e9 curiosa justamente por isso. \u00c0 primeira vista, ela parece falar de perman\u00eancia. A raiz fixa, prende, estabelece uma liga\u00e7\u00e3o com determinado solo. \u00c9 aquilo que n\u00e3o vemos, mas que sustenta o que aparece. H\u00e1 nela alguma coisa da hist\u00f3ria: uma esp\u00e9cie de continuidade subterr\u00e2nea que permanece mesmo quando a paisagem se modifica. Entretanto, uma raiz viva n\u00e3o \u00e9 im\u00f3vel. Ela se espalha, procura \u00e1gua, contorna obst\u00e1culos, ocupa novas regi\u00f5es do solo. Talvez tenhamos nos acostumado a associar estabilidade \u00e0 aus\u00eancia de movimento quando, para um organismo vivo, ocorre quase o contr\u00e1rio: permanecer vivo exige uma capacidade permanente de reorganiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 estranha ao pensamento reichiano. Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais importantes de Reich foi perceber que a hist\u00f3ria n\u00e3o permanece em n\u00f3s apenas como lembran\u00e7a. Ela se organiza em modos de responder ao mundo, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es, de respirar, de sustentar ou evitar determinadas experi\u00eancias. O car\u00e1ter \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de continuidade. H\u00e1 alguma intelig\u00eancia nessa continuidade, porque aquilo que se organiza um dia como defesa n\u00e3o surge gratuitamente. Responde a determinadas condi\u00e7\u00f5es da vida. O problema come\u00e7a quando uma resposta constru\u00edda em determinado momento deixa de poder se modificar diante de novas condi\u00e7\u00f5es. O que antes permitiu uma adapta\u00e7\u00e3o pode ent\u00e3o tornar-se rigidez. A hist\u00f3ria continua presente, mas j\u00e1 n\u00e3o funciona como raiz: funciona como limite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso a pergunta que ficou depois da conversa tenha sido:&nbsp;<strong>o que significa criar ra\u00edzes sem permanecer im\u00f3vel?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta vale para uma pessoa, mas talvez valha igualmente para uma institui\u00e7\u00e3o. Institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m constroem modos de existir. Criam h\u00e1bitos, linguagens, lugares reconhecidos, rela\u00e7\u00f5es, formas de ensinar e de transmitir aquilo em que acreditam. Com o tempo, tudo isso produz uma identidade. E uma identidade \u00e9 necess\u00e1ria: precisamos reconhecer alguma continuidade para podermos dizer que algo permanece sendo aquilo que \u00e9. Mas toda identidade carrega tamb\u00e9m um risco. Quando aquilo que nos permite reconhecer quem somos passa a determinar aquilo que podemos ser, a continuidade come\u00e7a a se confundir com repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja justamente nesse ponto que a ideia de movimento se torne importante para o Raiz neste momento. N\u00e3o se trata de abandonar uma hist\u00f3ria para come\u00e7ar outra. Tampouco de produzir uma novidade apenas porque o novo parece mais atraente. Mover-se pode significar outra coisa: permitir que uma hist\u00f3ria continue trabalhando. H\u00e1 diferen\u00e7as importantes entre romper com uma origem e deixar que uma origem produza novos caminhos. A primeira opera\u00e7\u00e3o pode exigir o esquecimento; a segunda depende da mem\u00f3ria. Mas de uma mem\u00f3ria que n\u00e3o funcione como monumento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m modifica a maneira como podemos pensar a tradi\u00e7\u00e3o reichiana. H\u00e1 sempre um risco quando nos aproximamos de um autor cuja obra produziu uma tradi\u00e7\u00e3o: transformar seus conceitos em objetos a serem preservados. Nesse caso, ser reichiano significaria repetir determinadas formula\u00e7\u00f5es, proteger determinadas fronteiras ou reconhecer uma esp\u00e9cie de identidade te\u00f3rica previamente estabelecida. Mas talvez uma tradi\u00e7\u00e3o permane\u00e7a viva justamente quando consegue suportar as perguntas que o presente lhe dirige. Pensar Reich hoje n\u00e3o deveria significar imaginar o que Reich responderia a todas as nossas quest\u00f5es. Talvez signifique perguntar quais problemas sua obra ainda nos ajuda a enxergar \u2014 e tamb\u00e9m diante de quais problemas precisamos continuar pensando para al\u00e9m dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma raiz n\u00e3o determina a forma exata da \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez essa seja uma imagem poss\u00edvel para o momento que atravessamos. H\u00e1 uma hist\u00f3ria que sustenta o Instituto Raiz. H\u00e1 pessoas, pensamentos, pr\u00e1ticas e encontros sem os quais ele n\u00e3o seria aquilo que \u00e9. Reconhecer essa hist\u00f3ria n\u00e3o exige transform\u00e1-la em um modelo ao qual o futuro precise obedecer. Ao contr\u00e1rio: talvez honrar uma origem seja permitir que ela continue produzindo consequ\u00eancias que ainda n\u00e3o conhecemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de tantos anos, perguntar novamente pelo nome \u201cRaiz\u201d talvez seja uma maneira de perceber que ele nunca falou apenas de perman\u00eancia. Falava tamb\u00e9m, mesmo que ainda n\u00e3o soub\u00e9ssemos, da possibilidade de crescer a partir de algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E crescer, para um organismo vivo, nunca foi permanecer im\u00f3vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 palavras que escolhemos antes de compreender inteiramente o que elas poder\u00e3o significar. Talvez \u201cRaiz\u201d tenha sido uma delas. Quando um nome \u00e9 escolhido para um projeto que est\u00e1 come\u00e7ando, ele costuma carregar alguma inten\u00e7\u00e3o, alguma imagem do que se deseja construir, mas tamb\u00e9m algo que s\u00f3 o tempo poder\u00e1 revelar. 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