{"id":5395,"date":"2026-07-23T17:37:24","date_gmt":"2026-07-23T20:37:24","guid":{"rendered":"https:\/\/institutoraiz.com.br\/2024\/?p=5395"},"modified":"2026-07-23T17:37:35","modified_gmt":"2026-07-23T20:37:35","slug":"as-ilusoes-e-aquilo-que-elas-ainda-sustentam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutoraiz.com.br\/2024\/as-ilusoes-e-aquilo-que-elas-ainda-sustentam\/","title":{"rendered":"As ilus\u00f5es e aquilo que elas ainda sustentam"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Susana Z Scotton<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que se tornam invis\u00edveis talvez porque sempre estiveram conosco. A cl\u00ednica conhece bem esse movimento. Algumas palavras atravessam anos de trabalho, retornam sess\u00e3o ap\u00f3s sess\u00e3o, aparecem em diferentes hist\u00f3rias e, pouco a pouco, passam a circular como se j\u00e1 soub\u00e9ssemos exatamente do que falam. Talvez isso descreva a ilus\u00e3o. Talvez aconte\u00e7a tamb\u00e9m com a fantasia, com a esperan\u00e7a, com aquilo que imaginamos sobre n\u00f3s mesmos ou sobre os outros. S\u00e3o experi\u00eancias t\u00e3o \u00edntimas que acabamos por trat\u00e1-las como parte da paisagem, sem perceber que continuam organizando silenciosamente a maneira como habitamos o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a cl\u00ednica, \u00e0s vezes, produz um acontecimento discreto. Ela n\u00e3o apresenta necessariamente um novo conceito nem revela uma verdade escondida. Apenas modifica o \u00e2ngulo do olhar. E aquilo que parecia excessivamente conhecido come\u00e7a, de repente, a adquirir espessura. N\u00e3o porque tenha mudado. Porque n\u00f3s mudamos a maneira de nos aproximar dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud compreendeu muito cedo que a vida ps\u00edquica n\u00e3o poderia ser reduzida aos acontecimentos do mundo externo. A realidade ps\u00edquica, que organiza um sujeito, n\u00e3o coincide, necessariamente, com a realidade dos fatos. Existe uma realidade ps\u00edquica, feita de lembran\u00e7as, desejos, fantasias, expectativas e cenas que, embora jamais tenham acontecido da forma como s\u00e3o vividas, possuem uma efic\u00e1cia incontest\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 preciso que uma fantasia seja verdadeira para que ela organize uma exist\u00eancia. Isto \u00e9, muitas vezes, vivemos tamb\u00e9m aquilo que imaginamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez antes mesmo de aprendermos a distinguir claramente entre aquilo que aconteceu e aquilo que desej\u00e1vamos que tivesse acontecido, j\u00e1 constru\u00edmos pequenas narrativas capazes de dar sentido \u00e0s experi\u00eancias mais primitivas. A inf\u00e2ncia n\u00e3o nos oferece apenas mem\u00f3rias. Ela nos oferece modos de imaginar. Os contos de fadas, os her\u00f3is, as promessas silenciosas inscritas nas rela\u00e7\u00f5es familiares, as imagens de reconhecimento e de amor participam da constru\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio em que a vida ps\u00edquica come\u00e7a a se organizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, vejamos, n\u00e3o se trata de um erro, pois imaginar seja uma das primeiras formas de suportar o desconhecido. Por\u00e9m, aquilo que inicialmente protege tamb\u00e9m pode, em outro momento, aprisionar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa passagem \u00e9 t\u00eanue, possui nuances pr\u00f3prias. N\u00e3o existe um instante em que a fantasia deixa de ser recurso e passa a ser obst\u00e1culo. H\u00e1, antes, um deslocamento quase impercept\u00edvel. A energia que antes ajudava o sujeito a sustentar uma travessia come\u00e7a a permanecer investida numa cena interior. Aos poucos, n\u00e3o \u00e9 mais a experi\u00eancia que conduz a vida, mas a expectativa da experi\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 o encontro que mobiliza o desejo, mas a imagem do encontro. N\u00e3o \u00e9 a realidade que decepciona; talvez seja a compara\u00e7\u00e3o permanente entre a realidade e uma promessa que nunca deixou de ser alimentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 curioso perceber como esse movimento pode tornar a vida aparentemente pobre. As pequenas experi\u00eancias perdem intensidade. Os encontros cotidianos parecem insuficientes. A simplicidade deixa de produzir encanto. Entretanto, talvez n\u00e3o seja a realidade que tenha perdido sua pot\u00eancia. Talvez seja o investimento que permane\u00e7a excessivamente comprometido com uma cena que continua exigindo ser realizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fantasia, se torna \u2018um local\u2019 inabit\u00e1vel, em que a vida continua sendo esperada. Nesse sentido, Reich tem contribui\u00e7\u00f5es valiosas. Se Freud mostrou que n\u00e3o somos transparentes para n\u00f3s mesmos, Reich pergunta de que maneira essa \u2018ilus\u00e3o\u2019 deixa de ser apenas um fen\u00f4meno ps\u00edquico e passa a organizar o pr\u00f3prio organismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a experi\u00eancia humana n\u00e3o se limita \u00e0s representa\u00e7\u00f5es conscientes, talvez tamb\u00e9m n\u00e3o se limite \u00e0s representa\u00e7\u00f5es inconscientes. A experi\u00eancia encontra continuidade na respira\u00e7\u00e3o, na musculatura, no ritmo, na postura, na qualidade do contato que estabelecemos com o mundo. O organismo n\u00e3o seria apenas o lugar onde a hist\u00f3ria deixa marcas. Talvez ele seja a pr\u00f3pria hist\u00f3ria vivendo no presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob essa perspectiva, a ilus\u00e3o deixa de ser apenas uma ideia equivocada sobre a realidade para se tornar uma forma de funcionamento. Assim, talvez algumas fantasias permane\u00e7am menos conscientes, pois aprendemos, ao longo da vida, a respirar com elas. A organizar o corpo segundo a promessa silenciosa que carregam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reich falava que toda experi\u00eancia ps\u00edquica encontra express\u00e3o funcional no organismo. N\u00e3o h\u00e1 pensamento que permane\u00e7a apenas pensamento quando se torna forma de viver. Por essa raz\u00e3o, talvez o trabalho cl\u00ednico n\u00e3o consista em desfazer ilus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses fen\u00f4menos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o concretos e n\u00e3o passam apenas pelo crivo racional. Como se bastasse interpretar uma fantasia para que ela perdesse sua for\u00e7a e como se compreender fosse suficiente para reorganizar uma exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cl\u00ednica mostra que mesmo que reconhe\u00e7amos que certo ideal nunca poder\u00e1 realizar aquilo que prometia, ainda assim, alguma coisa permanece. Talvez porque aquilo que chamamos de ilus\u00e3o tenha sido, durante muito tempo, uma forma de preservar a continuidade da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pode ser uma relevante na cl\u00ednica ao nos dirigirmos \u00e0s fantasias de um sujeito: <strong>o que elas sustentaram? <\/strong>Antes de perguntar se uma ilus\u00e3o corresponde aos fatos, talvez seja necess\u00e1rio perguntar a que experi\u00eancia ela procurou responder, que aus\u00eancia tentou substituir, que desamparo tentou contornar. Qual foi a esperan\u00e7a que preservou quando nenhuma outra organiza\u00e7\u00e3o da vida ainda era poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mudan\u00e7a de perspectiva altera tamb\u00e9m a escuta. J\u00e1 n\u00e3o ouvimos a ilus\u00e3o apenas como equ\u00edvoco e passamos a escut\u00e1-la como testemunho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa perspectiva reichiana, uma ilus\u00e3o \u2018desaparece\u2019, porque o organismo j\u00e1 n\u00e3o precisa dela para sobreviver. Mas esse n\u00e3o \u00e9 um movimento barulhento, muitas vezes. \u00c9 algo discreto. N\u00e3o se trata de ver a verdade vencer o \u2018erro\u2019. Mas mudar a qualidade do contato.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Para Reich a sa\u00fade n\u00e3o significa adapta\u00e7\u00e3o passiva, mas capacidade de responder de maneira viva \u00e0s situa\u00e7\u00f5es concretas da exist\u00eancia. Talvez essa formula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m possa valer para as ilus\u00f5es. Isto \u00e9, \u00e0 medida que a vida volta a ser um lugar menos in\u00f3spito, a energia antes aprisionada na ilus\u00e3o pode ser liberada para outros caminhos. O encanto deixa de depender de um \u2018por vir\u2019 imagin\u00e1rio e \u00e9 reutilizado na experi\u00eancia, na presen\u00e7a do outro, na simplicidade dos acontecimentos, que j\u00e1 n\u00e3o precisam competir com uma cena imagin\u00e1ria para serem vividos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja isso que chamamos de \u2018mudan\u00e7a\u2019. N\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o de uma cren\u00e7a por outra mais verdadeira. Mas o lento deslocamento de um organismo que recupera, pouco a pouco, a capacidade de encontrar a vida na experi\u00eancia dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode ser que o convite da cl\u00ednica seja esse: n\u00e3o convencer algu\u00e9m a abandonar suas ilus\u00f5es, mas acompanhar o momento em que elas deixam de ser necess\u00e1rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Susana Z Scotton H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que se tornam invis\u00edveis talvez porque sempre estiveram conosco. A cl\u00ednica conhece bem esse movimento. Algumas palavras atravessam anos de trabalho, retornam sess\u00e3o ap\u00f3s sess\u00e3o, aparecem em diferentes hist\u00f3rias e, pouco a pouco, passam a circular como se j\u00e1 soub\u00e9ssemos exatamente do que falam. 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