Um enigma de uma nota só – discussão em processo.

Imagem: Mona Lisa de Leonardo da Vinci

O Feminino ainda é muito culpado…

Na história de João e Maria, é como se Maria ficasse como a prenda e João, sim, se libertasse. O resgate do feminino, a recuperação do feminino com uma áurea de dignidade faz falta para a humanidade. O feminino ainda está muito tutorado, regido e desacreditado por homens e mulheres. Ainda não se resgatou a poção de Vênus, a qual conferiria a diferença da sensibilidade e da ressonância entre os seres, para o homem e para a mulher.

O homem – do lugar onde ele está – vê a mulher com temor assim como elas também se veem umas às outras; e ele tenta não se misturar a esta confusão. O medo de se misturar afeta diretamente a sexualidade, a comunhão entre homem e mulher. O homem teme e a mulher perpetua dentro de si o sentimento de rejeição, reforçado ainda mais pelo temor do homem. Acontece que isso provoca um movimento caótico e fragmentado, deixando todos ilhados.

Por enquanto, o melhor lugar é a solidão.

Atualizando este trecho que foi escrito em 2015, voltamos a discutir esta difícil questão que exige de nós sensibilidade e maturidade em direção à construção da compreensão do relacionamento entre homem e mulher. Por isto, é nossa tarefa escrever, reescrever, discutir, refletir para entregar sempre uma reflexão em processo para você, leitor.

A feminilidade é o grande enigma da humanidade, pois a expressão dúbia do feminino, assim como retrata Leonardo da Vinci com a Mona Lisa (1503), perpetua esse mistério tanto para os homens como para as mulheres. A impossibilidade da representação do feminino dentro de cada um de nós se dá pela dualidade dos sentimentos da mulher na maternidade, uma vez que a base que constitui a segurança do sentir emoções e sensações vem desta relação primordial com o organismo materno.

Dentro da clínica, o que se vê é um sofrimento importante e significativo tanto dos homens como das mulheres. A sociedade não tem incentivado o amor na juventude. Tem, antes, incentivado a compulsão, a quantidade como promessa de diversão e prazer imediatos e isto tem feito com que a chegada na vida adulta seja acompanhada por uma inabilidade e incapacidade de amar por falta de repertório de vivência, de experiência corporal, sensorial de unir o amor e a sexualidade.

Isso sendo visto como liberdade tem levado às mulheres a imitar o mundo masculino e, numa inversão de valores, assimilando um modelo triste e compulsivo, as mulheres reproduzem o ambiente sofrido, solitário de uma sexualidade genital dissociada, desconectada dos sentimentos afetivos. Pois trata-se de uma era em que a sociedade defende o narcisismo como referência de felicidade. A ideia é manter a fragilidade aprisionada nos porões sensoriais e investir numa cobertura de alegria, satisfação e sedução em detrimento da sensualidade.

Os homens, numa primeira camada, encontram-se paralisados, anestesiados, embebedados e, numa segunda camada, assustados, culpados, pois as mulheres não estão mais esperando o retorno deles para um lugar aconchegante e afetivo. É preciso dizer que as mulheres são responsáveis por abrir o afeto do casamento, por construir este lugar da receptividade; hoje, elas não mais acessam o desejo de espera e do amor.

A potência feminina deve ser vista como a abertura do espaço para acontecer o amor entre o homem e mulher. Cabe a mulher fazer este difícil papel do ninho caloroso da relação. Mas até hoje as mulheres não aceitam isto; ficam, antes, com a sensação de que isto as humilha, as ofende.

Quem autoriza a feminilidade da mulher é uma outra mulher, que não vai desqualificá-la e nem ridicularizar a atitude afetiva e dedicada. Porém, quem desfrutará de sua feminilidade é o homem e retribuirá com afeto, amor, etc. e ela passa a ter o prazer de ter ofertado a força de sua feminilidade. Para isso, muita força, determinação e leveza estão envolvidos. Aí está a grande essência do feminino. As mulheres devem se empoderar desta força e não de uma força que não é delas e que elas não dominam.

Hoje as mulheres não querem mais sangrar, não querem mais menstruar; porém ela precisa deste sangue, pois está ligado à relação dela com o próprio útero. Ela tem uma capacidade específica que o homem não tem que é a de compreender a natureza, pois ela funciona com a natureza. Ela tem a possibilidade de desvendar o enigma da natureza humana quando consulta as próprias vísceras. Este potencial o homem nunca terá; pois o corpo masculino é menos “umedecido”, desconectado do lugar onde ocorre a fertilização.

Então, topograficamente, fisiologicamente, o homem não tem condições de dar a mulher o que ela quer, pois ela busca a memória do organismo materno. A experiência que teve com sua mãe, ela busca incansavelmente nos braços de um homem. E, na verdade, ela só poderá encontrar dentro de si mesma, nesta sua relação com o próprio corpo em consonância com a natureza.

A mulher dá o tom da relação, o tom do encontro. Ela convida; dá o ritmo e é triste vê-la se ofender com isto e não perceber que aí mora sua potência de fato. Esta é a poção de Vênus no feminino, que inúmeras vezes passa desapercebido pela mulher que perdeu sua capacidade de espera confiante, sua sensibilidade. Quando isso ocorre, fala-se que “uma mulher pode ter tudo de um homem”. E se um dia o homem não entendeu a mulher, hoje ela mesma não se compreende.

Um dos aspectos interessantes sobre a abertura da feminilidade é a estimulação do olfato; existe um órgão que chama vomeronasal que fica entre o nariz e a garganta. Em uma pesquisa com ratos, este órgão foi eliminado e a fêmea começou a ter atitudes masculinas durante o ato sexual, balbuciando sons normalmente vistos nos machos. A situação evolui ao ponto em que as fêmeas só aceitaram o ato sexual entre si, eliminando o masculino.

Concluindo… há muito trabalho a se fazer em uma sociedade que estimula o narcisismo e a histeria para promover um encontro saudável entre o feminino e o masculino, em que o homem possa representar em paz, a lógica, e a mulher possa representar a afetividade para o casal, promovendo um diálogo entre um bom processo de mentalização e um bom processo de afetividade.

Num outro momento, discutiremos uma variação nos papeis dentro das relações. O processo é dinâmico e complexo e, aqui, falamos de um dos aspectos importantes. Não temos a pretensão de concluir nada, mas seguir com as reflexões que partem da prática clínica e do estudo das teorias.

Susana Zaniolo Scotton.

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