Sobre a sublimidade da morte

Imagem: Medusa de Caravaggio

(Sobre a possível vitória que há na morte…)

De acordo com o Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 2000), a palavra sublime foi usada primeiramente, no século I a.C., para designar a forma linguística, literária ou artística que expressasse sentimentos ou atitudes elevadas ou nobres.

Em sentido estrito, o sublime é o prazer proveniente da imitação ou da contemplação de uma situação de dor. Tal concepção está atrelada fortemente ao conceito de tragédia desenvolvido por Aristóteles (1973), para quem, a tragédia deveria produzir terror e piedade (compaixão) por meio da imitação. O terror e a piedade suscitariam a catarse no público espectador, numa espécie de purificação desses sentimentos. A catarse, em Aristóteles (1973), não está ligada à moral, mas tem suas origens na descoberta da medicina e que, neste sentido, teria um efeito de alívio, combinado ao prazer.  Mas, para que haja a catarse, o mito não deve representar homens muito bons que passam da boa para a má fortuna e nem homens malvados que passem da má para a boa fortuna, porque isso não suscitaria nem terror nem piedade no espectador. O homem representado tem que ser um intermediário.

Hume, no século XVIII, ao repensar os conceitos de Aristóteles, questionou como inexplicável o prazer que os espectadores sentiam ao ver uma representação que suscitasse paixões desagradáveis. Diversos filósofos passaram a se ocupar com a noção de sublime: Kant, Schiller, Hegel, Schopenhauer, Diderot. Diz Seligmann-Silva (2006), “o sublime mistura temas ligados à beleza, ao feio, ao terror e ao medo. Nele sexo e morte se encontram”.

Na literatura, podemos encontrar o sublime na tragédia, mas, principalmente, na literatura de testemunho. Nesses textos, o salto do horror para o sublime acontece a partir da estética, através das palavras e da emoção. A qualidade estética se torna muito importante numa obra literária: o uso magistral das palavras coloca o sublime em sentido paralelo ao belo (são nuances diferentes) e transforma o comum em extraordinário; haja vista, Edgar Allan Poe e Machado de Assis.

Na pintura, por exemplo, Caravaggio (autor da obra aqui postada – o rosto de Medusa) representa o sublime por meio de um intenso jogo de sombra e luz: a luz sublinha o horror em contrapartida com o mistério do mundo simbólico do padrão estético aceito, com a aproximação com a realidade. O sublime, nesse caso, comporta a beleza, a violência e o sagrado.

O sublime, portanto, tem que ver, em alguma instância, com “suportar” a dor, “topar a dor” para entrar em contato com o Belo que resguarda a Verdade. Não é simplesmente o belo, mas um Belo permeado pelo efeito estético e por tangenciar a realidade. Assim, é na arte…
Freud coloca a obra de arte no nível das formações do inconsciente. Mas, essa não é necessariamente a posição de Lacan (Seminário XXIV). Para ele, a obra de arte é um processo de verdade. A arte pensa, as obras de arte são o real. A arte pensa por meio dos dispositivos que a fazem funcionar e caberia à psicanálise discernir as verdades que diz e encontrar os meios para formulá-la.

De um pulo, então, da arte para a vida, a experiência terrível da morte de alguém próximo e da perda (de um emprego, de um relacionamento, etc.) pode ser uma experiência que comporta o sublime. Esse é um momento em que a dor, a desolação, quando são de fato vivenciadas (quando se enfrenta a Medusa que petrifica), abrem um espaço, um vazio, que pode ser um espaço de ‘criação’. Em literatura, André, narrador personagem de Lavoura Arcaica (NASSAR, 1975, p.88-89), diz: “Nenhum espaço existe se não for fecundado”. E esse é o vazio que se abre na perda, um espaço a ser fecundado, um espaço que reclama sua existência.

O vazio que, a priori é sentido com horror, vira um espaço de descongestionamento, da desobstrução, onde a energia ganha chance de voltar a circular. O vazio é como um espaço arejado de inspiração, carregado de emoção. Quando um corpo perde uma quantidade de sangue, quando doa sangue, por exemplo, há algo que também coloca o organismo em produtividade, ele também tem de produzir; ganhando em produtividade, ele ganha em função.

A perda redireciona a vida; abre caminhos. Talvez o que haja de sublime na perda seja o fato de estar conectada com o sofrimento. Pois é a consciência do sofrimento que possibilita o movimento de renovação.

Outro tipo de morte, a morte da ilusão, também produz um luto profundo e uma dor vertiginosa. O maior sofrimento que assistimos num processo clínico é de que a luta e o empenho do ser foi uma invenção e não uma realidade. É perceber que o que se segue e se desenha no destino dos acontecimentos de uma vida foi previamente determinado por volta dos 4 ou 5 anos de idade, momento da onipotência infantil. E descobrir e se descobrir obediente a um desejo que nasce na infância e rege a vida adulta, mas que não traz nenhuma satisfação real (adulta). Esse luto – distante do tempo e do espaço – é olhar para um abismo assustador. E, na beira do abismo, a sensação é de vertigem, que, nesse momento, se faz ponte entre o sonho e a realidade, isto é, tangencia a realidade. E, aqui, igualmente, espaços vazios são abertos.

Mas o sofrimento das perdas e mortes pode ter um sentido, pode vir a ser uma direção de vida; primeiro é preciso se deixar inundar; enxergar a vida como realidade enturvecida pelas lágrimas. Por mais paradoxal que pareça, existe uma alegria que acompanha o sofrimento, mas poucas são as pessoas que acessam a beleza do sofrimento para ir além. Muitas vezes, as pessoas vivem o sofrimento como um processo de vitimização e não conseguem sorver o aprendizado que essa experiência proporciona.

Há um movimento no sofrimento que vai da depressão à melhora; no entanto, essa melhora não pode ser rápida demais, porque senão a queda para a depressão é maior. O tratamento, por sua vez, consiste em não permitir que essa melhora rápida seja tomada como verdade.

A clínica tem de ajudar a diminuir a excitação que faria voltar ao ciclo da ilusão. O terapeuta tem de pulsar entre conseguir aproximar-se e não encostar. O terapeuta tem de ir até o último movimento antes de cair em definitivo – aí se busca o paciente – mas chega-se muito perto do abismo. Isto é, encontra-se o paciente no último movimento para não despencar também e dá-se o passo de volta; não se deve cair na contra transferência.

Essa é uma habilidade que precisa de tato, de cheiro, de experiência, para voltar sem cair. O terapeuta tem de topar a vertigem, o perigo, sem negá-lo; pisar com medo, topar a história, tem de ir junto, mas devagar. O terapeuta deve estar pronto e suas questões pessoais devem estar muito bem trabalhadas para poder dar esse suporte.

Não são todas as obras de arte que proporcionam o sublime. Para se alcançar o sublime, deve haver um trabalho estético muito bem elaborado, deve haver o mistério que pressupõe o sagrado. A experiência da morte e da perda muitas vezes não pressupõe clareza e entendimento, mas quando vivenciada numa outra instância, em seus interstícios, abre espaço para o sagrado, para a contemplação divina que há em experiências como essas. Nesse sentido, cabe ao terapeuta estar junto para que tudo isso seja alcançado com menos solidão; para que ele seja testemunha solidária desse processo. Cabe ao terapeuta, principalmente, topar enfrentar o vazio com a pessoa, esse espaço a ser fecundado.

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