Sigmund Freud por Roudinesco

Breve comentário sobre a obra “Sigmund Freud, na sua época e em nosso tempo“, de Elisabeth Roudinesco (2016).

Boa tarde! Recomendamos a leitura desta obra de Roudinesco sobre Freud. Roudinesco é uma historiadora e psicanalista francesa bastante importante e ela foi a fundo na vida e obra do mestre. A partir de um olhar mais distanciado do ponto de vista histórico, ela consegue dar ao leitor a dimensão da construção da Psicanálise enquanto disciplina que conversa com seu momento social, cultural e político. Delicioso ver a formação erudita de Freud e a influência da mesma em sua leitura sobre a alma humana.

Como a Psicanálise se erigiu? Como foi a vida de Freud? Como foram os seus relacionamentos dentro e fora da sociedade Psicanalítica? Como se deram os primeiros atendimentos clínicos? Como foi fundar e ser psicanalista no período entre guerras? Essas e outras questões, a historiadora responde de forma contundente, baseando-se em fontes históricas variadas, porém críveis. Enumera suas constantes influências (de Charcot a Thomas Mann) de forma que estas foram imprescindíveis para que ele alcançasse a elucubração teórica que conquistou. Um homem que não se fez sozinho.

Ela tem a coragem de pôr em cheque ideias “preconcebidas” sobre a teoria psicanalítica e Freud, investigando e elucidando seus pressupostos. De outro modo, também não redime os psicanalistas e o próprio mestre de seus erros e de sua “imparcialidade” no início do surgimento do nazismo.

Fala da alcunha da Psicanálise enquanto “ciência judaica” tanto para pensá-la além como para reclamar seu lugar de nascimento no berço desta cultura. Em relação a isso, discute a posição do próprio Freud frente a sua origem judia e a influência imbrincada da mesma em sua formação.

Roudinesco disseca as relações conturbadas entre Freud e seus discípulos, como Jung, Adler, Ferenczi, Jones, etc. permeadas por admiração, amor filial, traição, ciúmes, inveja… ou mesmo por questões políticas como as que ele e alguns dos seus tiveram com Wilhelm Reich, resultando em sua expulsão da Sociedade Psicanalítica. Também sobre como as teorias surgidas a partir do pensamento freudiano se distanciaram e se recriaram. Fala da influência das mulheres na psicanálise e de como Freud as estimulava a serem psicanalistas. Anna Freud, por exemplo, é citada como fiel escudeira e como paciente do próprio pai – o que seria inconcebível; sua homossexualidade não é negligenciada e serve como ponto de reflexão teórica. Conta-nos sobre a arte epistolar de Freud e seus correspondentes intrigantes, como Fliess e Lou Andreas-Salomé, dentre outros.

A leitura é instigante, saborosa e elucidativa. Aproxima-nos do mestre por falar de suas paixões: música erudita, literatura, cães, a família que sempre ajudou. Por falar de suas falhas, contradições e dores: sua culpa em relação ao seu pai, sua renuncia à própria sexualidade, sua adesão à cocaína num determinado período, sua compulsão pelo charuto, seus temores, o câncer… a autora – por ter a coragem de humanizá-lo – o engrandece e o eterniza ainda mais.

Por tudo isso, esta se torna uma leitura proveitosa para terapeutas e psicoterapeutas coporais!
Susana e equipe.

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