Série “Construindo a Identidade” – Uma nota sobre Identidade

Uma nota sobre a Identidade

Texto de abertura da série “Construindo a Identidade”. Esta série compreende a ideia de um diálogo claro e aberto com pais, professores, educadores e com os demais envolvidos no desenvolvimento bio-psico-social de uma criança. Aqui trabalharemos de forma resumida a noção básica de identidade dentro da Psicanálise.

imagem: pintura de Gustav Klimt.

A palavra identidade nos remete ao que é igual, ao que é idêntico. Entretanto, algo só tem uma identidade se há traços que o diferenciam dos demais. Um lápis grafite é idêntico a outro lápis grafite, se não levarmos em conta diferenças de marca, modelos, etc. Esse lápis só é assim, porque não é um lápis colorido, ou uma régua, etc. Assim também se processa na língua: a palavra “fala” só tem sua identidade fonética, gráfica e de significados, pois seus traços a diferenciam das outras tantas como, por exemplo, a palavra “cala”, que em função da presença de uma única letra (‘c’) é o “oposto” de “fala” e assim por diante.

Isto é, queremos dizer que a palavra “identidade” evoca, por consequência, as palavras “alteridade”, “diferença”. Uma pessoa, por exemplo, possui sua identidade, no meio de outras tantas pessoas, por ter um nome e sobrenome, por ter um pai e uma mãe, que respondam à sua filiação, por ter um biotipo próprio, por ser morador de uma determinada cidade, estado, nação, pertencer a uma cultura… A identidade ao mesmo em que nos aproxima, nos assemelha, nos diferencia.

De acordo com Renato Mezan (1986), na obra Psicanálise, Judaísmo: ressonâncias, a identidade não é um elemento que possuímos ao nascer, mas, antes, é algo adquirido aos poucos, ao longo de nossa infância, de nossa educação, varia de acordo com cultura na qual estamos inseridos, etc. A identidade está situada no ponto de cruzamento entre o aparelho psíquico com o qual nascemos e algo que nos vem da realidade externa.

Para a Psicanálise, a identidade vem por meio do processo denominado identificação. Este processo de identificação culmina na constituição, “dentro de cada um de nós, de um eu, isto é, de uma parte nossa que vai nos parecer a única, porque é apenas dela que temos consciência” (MEZAN, 1986, p.21).

Por isto, o sentimento de identidade está associado, segundo Mezan, à noção de continuidade: mesmo que o tempo passe, que estejamos em lugares diferentes, vivendo em contextos diversos, possuímos, na maioria das vezes, uma sensação subjetiva que nos acompanha e que nos confere a identidade. Junto ao fenômeno da continuidade está a sensação de limite. Por exemplo, sabemos os limites de nosso corpo – onde “começa e termina”, assim como o sentir-se inteiro na própria pele, etc.

Mas é preciso dizer que nem todo mundo tem essa sensação de limite. Tais fenômenos que envolvem as sensações de permanência, continuidade, limites claros entre si e os outros não são tão naturais para alguns indivíduos. Para estes, que podem apresentar sintomas muito variados, a noção de identidade é pouco estruturada e isto pode afetar bastante o seu desenvolvimento bio-psico-social.

A construção da noção de identidade tem seu início na relação mãe-bebê, pois é ela que irá ajudá-lo a construir um “eu”. Por isto, as nuances desta construção dependem da maneira como a mãe lida com seu bebê, o que, por sua vez, também depende da maneira como ela lida com sua própria psique e com seu próprio “eu”. A função do “eu” é, de acordo com Mezan, conferir sentido ao que ocorre à psique, ao que vai lhe acontecendo por estar dentro de um corpo e num sistema de relações com os outros seres humanos. Por isto, é preciso que o “eu” seja capaz de uma atividade psíquica que não se confunda com a fantasia, que seja capaz de discernir entre ilusão e realidade.

A mãe ou a pessoa responsável pelos primeiros cuidados é a primeira envolvida nesse processo de construção de identidade. O pai e demais membros da família e a escola também desempenharão um importante papel neste processo. Em função desta importância social que temos enquanto pais, mães, educadores e cidadãos, ou seja, enquanto pessoas que propiciam, de maneira direta ou indireta, meios para que haja um desenvolvimento saudável da identidade, inauguramos este série de reflexões sobre a “construção da identidade” (Construindo a identidade), que envolverá reflexões sobre o bebê, a criança e o jovem, sobre algumas questões específicas, e como poderemos cooperar para um desenvolvimento saudável. A ideia é de conversa que se pretende um diálogo claro, aberto, generoso.

Próximo texto sobre a Criança e o Brincar.

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