O cavaleiro da armadura de ferro

Naquele tempo das cavalarias, havia um bravo guerreiro que passou um bom tempo
em combate, salvando donzelas, defendendo reinos e que agora voltava para sua casa, para
sua família. Para as batalhas travadas, o homem possuía uma armadura de ferro que o
protegia dos ataques. Feliz com seus feitos, mesmo já em casa, o cavaleiro pouco tirava sua
vestimenta, símbolo e ostentação de sua bravura. Depois de tanto uso, a armadura foi colando
em seu corpo de modo que ele mal podia se alimentar: a ferrugem e a rigidez da roupa foram
endurecendo seu corpo e seus movimentos, até seu olhar ficar frio e distante. A roupa
atrapalhava suas relações, difícil aproximar-se daquele homem “armado”; ele pouco se
comunicava com a esposa e com o filho; não podia dar e nem retribuir carinhos e até dos
amigos ele foi se afastando.
Assim sua família e os seus amigos pediram que ele buscasse ajuda.  Alguém sugeriu
que ele procurasse o mago Merlin nas montanhas. O bravo guerreiro, só depois de superar
muita desconfiança e de se perceber com risco de morrer, saiu em busca de Merlin. Esse foi o
primeiro passo que ele deu em busca de ajuda, pois dependendo do tempo que o homemCAVALEIRO DA ARMADURA DE FERRO
passasse com a armadura não seria mais possível se livrar dela (dependendo do tempo que
insistimos numa defesa ou num modo de encarar a vida, fica difícil mudar nossa perspectiva).
Merlin, depois de ouvir atentamente a história do cavaleiro, percebeu que ele teria
que dar início a uma jornada, na qual ele não poderia estar sozinho. Como Merlin não poderia
acompanhá-lo, ele daria ao homem dois guerreiros de sua inteira confiança. O guerreiro ficou
muito satisfeito, afinal enfrentaria o que quer que fosse acompanhado por cavaleiros de
armadura como ele.
Tendo acordado a empreitada, Merlin o levou a uma floresta densa e escura e ali
apresentou ao homem seus companheiros de viagem: um pequeno esquilo e um passarinho
de penas macias. O cavaleiro se decepcionou profundamente, afinal de que lhe serviria um
frágil esquilo? Ou mesmo um delicado passarinho? Acostumado com batalhas, ele sabia que
era preciso de força e dureza para enfrentá-las, atributos de homens armados como ele e não
de animais pequenos.

Porém, uma vez na floresta, o esquilo se apresentou ágil, sensível, disponível, correndo
quilômetros à frente na jornada e voltando para avisar sobre o que ele havia encontrado de
comida, de perigo e também de oportunidades, caminhos alternativos. O esquilo passou a ser
a visão do cavaleiro, uma visão que transcendia o que o homem poderia ver. E o passarinho
era suave, era ágil e exercia uma função mais aérea e, principalmente, trazia alimentos e
colocava na boca do guerreiro, que, em função da rigidez da armadura colada em seu corpo, já
não podia mais se alimentar; seus braços duros não podiam levar comida a sua boca e seu
maxilar endurecido tão pouco conseguia mastigar. Mas o passarinho atento trazia alimentos
pequenos e nutritivos e ia alimentando o homem como quem alimenta um filhote.
Os cuidados dos bichinhos para com ele foram sensibilizando sua natureza hostil e os
dois de fato o acompanhavam como dois irmãos, juntos e solidários. Mesmo inseparáveis,
chegou o momento em que o guerreio teria de enfrentar um desafio sozinho. Ele teria de
atravessar o castelo do medo. Dentro do castelo escuro de muralhas imensas, morava um
monstro gigante cujo fama de mau era conhecida até nos povoados mais distantes.
O guerreio abriu as portas do castelo e logo se assustou: sentiu seu corpo tremer,
apesar da armadura, e a respiração ficou difícil, um pouco mais curta. Fazia um bom tempo
que ele não sentia o próprio corpo preso nas malhas do ferro de sua roupa de cavaleiro. A
sensação, no entanto, o pôs mais apavorado ainda! Ele tentou voltar, mas seus fiéis
companheiros o incentivaram a continuar e ele foi percebendo que quanto mais ele recuava,
mais o monstro se avolumava; e que se ele fosse adiante, o monstro diminuía. Então, o bravo
homem seguiu em frente, acompanhado espiritualmente de seus companheiros, ele foi se
encorajando e um passo após o outro foi chegando ao interior do castelo. Para sua surpresa, o
gigante tornou-se uma formiga do tamanhinho do seu pé. Ele percebeu que o monstro
grandalhão era só a sua sombra! Assim, ele pode atravessar os meandros do castelo e chegar
ao seu final e reencontrar com seus amigos.
E novos desafios iriam logo aparecer. Ainda era preciso atravessar o castelo da raiva,
da tristeza… e pior ainda: o castelo da alegria e do amor. O cavaleiro nem se lembrava de
como eram essas sensações, tão encapsulado e amortecido por aquela armadura e sempre tão
pronto para o combate, não sabia mais o que eram esses sentimentos. Mas cada desafio e a
parceria dos dois animais faziam com que o homem se sensibilizasse. Ele reaprendeu a sorrir e
a chorar. As lágrimas, em particular, fizeram com que o aço da armadura derretesse e aos
poucos aquela armadura pesada foi se desfazendo e um novo corpo pulsante, vivo, nasceu
embalado também por uma alma revisitada!
Reich fala das couraças musculares como espécie de armaduras que vão impedindo o
indivíduo de sentir, de estar no mundo e nas relações de forma plena. A couraça, inclusive,
bloqueia a respiração. A respiração influencia nas nossas sensações e até no nosso modo de
agir. Mas também é Reich que fala que, por trás da couraça, pulsa uma vida com grande
potencial de existir de forma mais plena.
Na clínica nos deparamos com o impenetrável, com a armadura presa do guerreiro.
Mas como tornar consciente defesas tão profundas? Mais ainda: como se desfazer das defesas
sem que ego se sinta ameaçado? Acredito que na clínica é possível se valer de histórias, de
metáforas também para acessar o inconsciente, pois também há uma exposição do cliente que
deve ser cuidada – pensar a clínica sempre com muita responsabilidade. A história, nesse caso,
serve como um modelo novo para pensar a si mesmo. A história acalma, simboliza, tem um
cuidado de falar sobre o mito, o outro, não falando diretamente a respeito de si. Acho até que
deveríamos contar mais histórias, ao invés de (re) clamarmos…
Ao invés de rejeitar nossos companheiros, família, amigos, deveríamos aprender a
contar com o que temos e não com o que seria ideal. Incentivo, nesse sentido, as pessoas a
valorizarem seus familiares, seus amigos, as pessoas que se tem de fato e que às vezes
achamos que não nos são suficientes (como pensava o cavaleiro a respeito do pequeno esquilo
e do passarinho de penas macias).
Essa história nos mostra ainda que é preciso chorar, liquefazer-se um pouco para
afrouxar a couraça, para suavizar as marcas faciais de tristeza, do desgosto. Só chorando para
suavizar essas marcas de sentimentos que já foram experimentadas de uma maneira
traumática. Liquefazer-se recupera o sujeito de dentro de si mesmo; ele pode assim deixa de
ser um objeto “assujeitado”.
A história do guerreiro fala também sobre a passagem da eficácia (exigida pelo mundo)
que nos torna objetos para um sujeito de fato, para a compaixão – o sujeito não existe sem o
mínimo de compaixão. Na história, a função de guerreiro substitui o homem. Acho que
ganhamos mais na compaixão que na eficácia. Trata-se da passagem do impenetrável, da
armadura ao acessível, ao corpo pulsante, vivo. A ideia é procurar ser sempre sujeito. A
amorosidade tem que ser consequência, a compreensão tem que ser consequência de um
diálogo entre sujeitos. A clínica é uma das possibilidades para que façamos essa passagem do
homem “coisificado” pelas amarras da defesa e da exigência do mundo para um sujeito de
fato. Um sujeito com um corpo mais pulsante, atento, consciente de seus desejos, dialético e
de couraças um pouco mais afrouxadas… Mais aberto para o amor.

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por Susana Zaniolo Scotton


Inspirado na obra de Robert Fischer (2004), O cavaleiro da armadura enferrujada.

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