Desamparo e Solidão

Imagem: Pintura de Van Gogh

Comecei a perceber que o que as pessoas falam enquanto solidão não é exatamente sobre o solidão…

Observando, na clínica, o relato de alguns homens e algumas mulheres que se desesperam por estarem sozinhos, estranho o fato de que, quando estavam num relacionamento, o prazer de alguma forma estava ligado à necessidade da presença do outro apenas; como se o parceira ou parceiro pudesse suprir uma necessidade primitiva de amparo, mas não que a relação comportasse uma função sexual propriamente, pois para isto seria preciso de uma carga energética que o desamparado não tem.

Muitas vezes, a mulher vai desistindo do homem e o homem da mulher como possibilidade de viver sua sexualidade genital e coloca o outro como a possibilidade de amparo e segurança existencial. Por isso, é preciso prestar atenção quando as pessoas reclamam da solidão, que pode ser, na verdade, a presença viva e pulsante de um desamparo primordial / primitivo que se manifesta.

Falemos de duas questões fundamentais sobre o desamparo em paralelo com uma grande confusão entre o sono e a fome, na infância. Uma das formas primitivas de desamparo é quando a criança não tem a sorte de uma mãe que reconhece sensivelmente suas necessidades entre o sono e a fome, que são diferentes entre si e devem ser respeitadas. Dentro de um contexto familiar, social, cultural, muitas vezes, há um desrespeito em relação às necessidades de uma criança, na primeira infância, que precisa ser assistida em suas necessidades específicas de sono e fome pelos seus cuidadores. O resultado disso é que algumas crianças acabam se cansando e dormindo pela falta de alimento, que deve ser oferecido de acordo com o seu ritmo e necessidade. Aí a criança dorme insatisfeita ou se mantém acordada com um alimento “desnecessário”, suprindo a necessidade de um lugar calmo de descanso. Muitas vezes, as crianças procuram na comida um substituto inadequado para sua necessidade de dormir.

Lembremos do conto popular “João e Maria”. Os desamparados João e Maria são deixados na floresta a própria sorte, pois o pai e madrasta (em algumas versões) não tinham o suficiente para alimentá-los. Uma vez sozinhos e perdidos na floresta, são iludidos pela casa de doces e são capturados pela bruxa, que representa um segundo aspecto da madrasta, relacionado à sedução: ela não oferece alimentos para nutri-los e, sim, para capturá-los. É o alimento como barganha de algo que se quer conquistar e não como nutrição. Como as crianças que estão na vida para alimentar os pais e não para serem alimentadas pelos pais (entenda-se os cuidadores de forma geral), que prometem um prazer ilusório que não sustenta e intoxica.

Então, tais situações criam um desamparo que não é percebido nem mesmo decodificado pela pessoa e reeditado por toda vida. Não sendo percebido, passa a ser impossível de ser tratado na ausência da consciência do trauma, que fica sempre numa camada abaixo da solidão. O desamparo é o que impulsiona o sentimento de solidão dentro desta ótica. Pois, a solidão é um bom sinal desde que a pessoa seja uma boa companhia para si mesma. Mas, para tanto, é preciso estar amparado. Estar amparado significa estar suprido em suas necessidades básicas de afeto, de reconhecimento, segurança em direção à satisfação bio-psico-social.

Por Susana Zaniolo Scotton

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