CONSTRUINDO A IDENTIDADE: O PRAZER NO LUGAR DO DESEJO

Imagem: Pintura de Gauguin

Eu sei de mim se eu posso sentir.

A construção da identidade de um indivíduo também é uma construção visceral. Num primeiro instante, com o nascimento, o que se tem é um corpo com necessidades primordiais de ser alimentado, confortado, acolhido, ser visto em suas necessidades. Por exemplo, um bebê tem fome, mas às vezes tem uma hipertensão que já está instalada em seu corpo e necessita fazer uma descarga desta tensão ao invés de ser apenas alimentado. Assim, aos poucos ele vai sendo respeitado em suas demandas para mais para frente também aprender a se respeitar.

Esse pequeno corpo que se desenvolve deve ser ouvido primeiramente em suas necessidades para que haja uma construção saudável do eu, da identidade, que está relacionada ao se perceber, ao aprender a se consultar. Como o ego é corporal (para Freud, para Reich), a identidade transita por esta consulta do que é visceral, do que é sensorial. O indivíduo só pode saber de si mesmo se ele teve e tem o tempo do sentir e isto faz parte de uma construção desde os primeiros momentos, em suas relações com seus cuidadores. Então, para falar de identidade é preciso falar de um direito de sentir.

Porém, estamos num momento em que o tempo de maturação dos processos orgânicos, que envolvem o indivíduo como um todo (maturidade para se ter determinadas experiências, os processos de luto, de nascimento, de aprendizagem, etc.), é pouco respeitado. Isto quer dizer que as decisões sobre “o que fazer”, “o aproveitar a vida” têm que ser tomadas sem que se respeite necessariamente o biorritmo dos desejos, porque a necessidade de obtenção do prazer – a ordem do prazer – se coloca na dianteira dos acontecimentos. Neste sentido, a noção do eu e a própria identidade “são colocados à prova”.

O que suplanta essa discussão é “a modernidade líquida” descrita por Bauman como o resultado de um mundo repleto de sinais muitas vezes confusos, em constante mutação e se alterando de forma imprevisível. Essa ideia está relacionada ao quanto o prazer está tomando o lugar do desejo; como se as pessoas tivessem que ter prazer sem ao menos ter tempo para observar o próprio desejo. Na era da velocidade da comunicação, as informações saltam aos olhos “sem pedir permissão”; há uma enxurrada de ofertas de prazer ou de vislumbre do que seria o ideal de prazer. Mas qual seria de fato o desejo do indivíduo? O que ele de fato está sentido?

É como se não houvesse mais tempo, tal qual o “responda agora”: “o que você quer? Quer esse ou aquele?” É preciso ter prazer e tem que ser rápido. O tempo para se consultar e ver o que realmente se quer se torna inviável. E nesse percurso, as pessoas vão diretamente para o prazer, fazendo um caminho que não passa pelo desejo. Então, que sentido tem algo conquistado, mas que não foi de fato desejado? É muito difícil assimilar o que não se desejou como prazer e o que resta desta equação é a eterna insatisfação, o vazio existencial. Já o desejo envolve a angústia, a frustração e a possibilidade de se conhecer, de se consultar, de se perceber, de negociar com a realidade as possibilidades de sua realização ou não. O prazer imediatista não pressupõe este caminho, mas intensifica as possibilidades do consumo e, depois, do tédio e da busca incessante por outro novo prazer.

Entretanto, há uma ordem que diz que é preciso estar feliz, afinal este mundo tem tantas opções. Há muita coisa disponível, mas mesmo assim nem sempre é o que o indivíduo quer. As pessoas às vezes nem decidem se sua opção era realmente o seu desejo; apenas atendem à ordem do prazer vinda de fora, programada. Os pais, por exemplo, costumam dizer: meus filhos têm tudo, o que poderá torná-los infelizes? Ora, muitas vezes, os filhos têm tudo que os pais querem dar, mas nem sempre o que eles desejam. Na verdade, eles têm o que a sociedade determina como algo desejável, mas esta oferta nem sempre é exatamente o desejo do indivíduo.

A situação da primazia do prazer em relação ao desejo faz com que as pessoas se percam num processo de alienação; elas perdem a capacidade de parar e dizer “olha, o meu desejo é outro” … “mesmo que o ideal seja uma viagem para Paris, eu gostaria de ir para outro lugar mais simples, pois isto de fato me faria feliz”. Ao investir num prazer sem se consultar, o ser humano vai solapando sua identidade, solapando sua capacidade de decidir.

Esse excesso de opção resulta numa pressão psíquica. Uma pressão psíquica que gera confusão, uma sensação de como se fosse impossível se contentar com a própria vida, apesar de “se ter tudo”. Talvez uma das maiores riquezas que se perca seja a capacidade de se consultar, de se consultar em relação aos desejos antes da ordem do prazer, de sentir o sensorial, de se perceber em direção à satisfação numa sociedade em que o prazer já está pronto, dificulta a construção da identidade.

Por Susana Zaniolo Scotton

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