A normalização da violência sexual em direção à loucura ou encontro amoroso? Comentário a respeito do filme Cinquenta Tons de Cinza (2015).

A história de Christian Gray e Ana – lida e assistida por milhares de pessoas – tem afetado de diversas maneiras o imaginário coletivo no que tange o prazer e a angústia. A história tem como pano de fundo a Inglaterra e toda sua mitologia em torno da realeza e dos casamentos entre príncipes e plebeias. Mas de qualquer forma, o tema é universal, pois fala do mundo da sexualidade e seus conflitos presentes em homens e mulheres, na dinâmica relacional.

O grande desafio deste trabalho está em buscar um significado, uma leitura, um material simbólico que dialogue com a insatisfação sexual e o medo da entrega ao sensorial, ao feminino, tanto do homem quanto da mulher.

Essa é uma história que parece percorrer o caminho da desestrutura na tentativa de estruturação e formação da pessoa psicossomática, integrada.

Gray é um homem vivendo em meio a uma verdadeira reviravolta e inversão de todos os valores que se relacionam com a vida sexual humana. Entre o super-homem e o sub-homem, entre a onipotência e a impotência, entre a angústia e o prazer, o conflito de duas realidades que ele não demonstra estar desconfortável.

Ana e Gray se guiam pelas dualidades prazer/desprazer, manipulação/entrega, medo/desejo e tristeza/raiva para encontrar alguma forma de satisfação para dar alívio a alguma forma de angústia. O sádico apresenta uma essência masoquista, enquanto o voyeur teria desejos exibicionistas inconscientes. Essa mesma dualidade está presente na relação de Ana e Gray, enquanto um adoece o outro fica saudável e ai há impossibilidade de junção entre eles, tal qual o Feitiço de Áquila, em que os amantes não podem se encontrar em função de uma espécie de feitiço em que um habita a noite e o outro o dia, impossibilitando a união.

O conceito de sadismo inclui a ideia não só de humilhar e dominar, como também de infligir dor, que não se enquadra nas metas originais da pulsão. Assim como ocorre no filme, a dor provocada em Ana parece ser uma maneira de depositar submissão, medo e angústia de Gray. Nesse caso para que ocorra a meta pulsional, ele precisa sentir a dor com uma identificação com o objeto que sofre (ou seja, ela), concomitantemente com o prazer da integração. Na medida em que Gray a faz sofrer ele pode se integrar – se “auto-integrar” – por uma espécie de identificação: é pela percepção da dor que o outro se humaniza para ele.

O medo da dependência, da desintegração, impede a integração de sentimentos psíquicos e sensações somáticas, mantendo com isso o falso self. Uma psique imatura, embora fundamentada no funcionamento somático, ainda não está intimamente vinculada ao corpo.

Dessa reflexão nos sobram as questões: Qual o sentido erótico da realidade? Como o homem pode experimentar a Civilização na Sensualidade, de acordo com os ensinamentos de Wilhelm Reich?

Segundo Dadoun, no texto de 1975, na página 322, “Reich concebe a potência orgástica como capacidade de ereção e de realização global do coito, sem preocupar-se com as formas, atitudes, maneiras de ser e sentir, fantasmas e outros inúmeros fatores que intervêm na relação amorosa…”.

A pergunta que devemos fazer para compreender o fenômeno que também nos aflige em algum grau de intensidade e frequência é: “Como poderemos olhar para as angústias da sexualidade humana sem hipocrisia?”.
(Este texto trata-se de um resumo de um dos aspectos da Conferência feita por Susana Zaniolo Scotton, no dia 11 de maio de 2015, na faculdade UNIARA – ARARAQUARA-SP, na XII SEMANA DE PSICOLOGIA).

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